terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

- Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Dói despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado. Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora. Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração. E o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais. Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal". Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torne-se uma pessoa melhor e assegure-se de que sabe bem quem você é antes de conhecer alguém e de esperar que ele veja quem é você. E lembra-se: tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.


Fernando Pessoa.


Pra você que me ama,



# Laryssa Lobo .

Um comentário:

  1. Admiro as palavras de Fernando Pessoa, aliás quem sou eu para tentar debater com suas idéias. Reflexiono em suas palavras, e vejo que ele também entende de física. Sim, a mesma física que rege o Universo, ou como alguns chamam, leis naturais de DEUS. Aquelas que dizem a toda coisa ou ser da existência que tudo muda. Que a mudança é a lei do existir e da vida. Nada está no mesmo lugar, que ocupara antes. O Universo se move, a sensação do estático é uma ilusão.

    Sim, acredito nisso, vivo em constante mutação, não que não tenha caráter, simplesmente procuro adaptar a minha personalidade à realidade nova de cada dia. Entendi que as pessoas mudam, que não tenho direito de exigir as mesmas atitudes. Que a história de cada um tem seus nuances, e que não cabe a mim julgar o passado. Tudo foi da forma que tinha de ser. Apenas procuro aprender com a experiência dos outros. Não digo “erros” porque não existe um manual para a vida, nem resposta certa para tudo, cada ser tem suas próprias reações, e é só, não há explicação a ser dada.

    Abrimos e encerramos ciclos todos os dias. Mas, não quero esquecer as boas recordações, as não tão boas essas sim já foram. Mudar de casa é uma das minhas diversões, doar coisas para colégios rurais, pessoas mais necessitadas, vender coisas velhas, inclusive os livros que tanto apreço tinha, isso tudo já fiz. E continuarei fazendo, nessa caminhada chamada vida.

    Acho que estou começando a entender esse tal de Fernando Pessoa.

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